Fotografia minha
Viver entre margens fez-me madrugar a caminho do trabalho anos a fio, mas também ter a oportunidade de apreciar pequenos grandes momentos de rara beleza ao longo do rio.
O "paquete" que saía a barra, noite cerrada ainda, iluminado de alto a baixo, sulcando as águas a abrirem-se na frente lívidas, borbulhantes, num doce e lento embalar. No pequeno cacilheiro, quem dormitava não o viu, como parecia não ligar aos majestosos nasceres do dia; exausto, ignorava os gloriosos entardeceres.
Mesmo quem lia, intervalava, deixando os olhos vogar pelas águas ou ao longo do horizonte; não revelando o enredo e o que lhe ia no íntimo ficou consigo. Já quem entrelaçava fios em gestos precisos, não se distraía.
E enquanto os apressados se aglomeravam à entrada, os sonhadores quase sempre não davam conta de que se atracara.
Sobre o rio, ela. Incansável. A ponte sexagenária. Levando ao destino outros. Constantemente.
Cá em baixo, os pescadores. Às vezes! Os troncos e ramos que vogavam quando as cheias se tornavam, longe, em enxurradas. O azul, nítido, orlado a branco puro. O cinza carregado, espelhando o céu atulhado.
A chuva nas ondas. Ocasionalmente, na época, o nevoeiro cerrado que levara o rio e a cidade para parte incerta. Os salpicos na pele. Tão agradáveis no estio. Um susto ou outro. Nada de mais.
Viver entre margens, porque lá foi o meu berço e mora para sempre o meu coração, fez-me, como a tantos, quais formigas diligentes, descer e subir rampas, palmilhar passeios, atravessar jardins, correr com ganas, para cá e para lá.
Não equacionar sequer perder o ferry, muito antes dos catamarãs, se o vento entendia fazer das suas e a travessia, por ela podia encerrar.
Viver entre margens levou-me a passar-lhe por baixo, caminhar-lhe por cima, cruzá-la sem conta de carro, raramente de comboio, admirá-la antes, anos e anos, ora da janela do meu quarto, ora da da sala, antes de imaginar que a minha outra casa seria aqui.