Sobre viver em dias severos

Era uma vez um jardim/pomar

Fotografia minha - O Limoeiro do meu pai.

 

Há gente azeda! Gente que nasce torta, apesar da sua aparente verticalidade. Há pessoas como limoeiros. Pequenas árvores com ramos, raminhos e espinhos robustos. Casca-grossa! Não obstante produzirem frutos odoríferos, não têm meio-termo, são incrivelmente ácidos. 
Gosto de limoeiros e de limões! Do agradável perfume. Sou fã da cor. Inclusive do sabor em cozinhados ou bebidas. Se não fossem os picos...
Há gente ignorante e má! Gente a quem até a humilde beleza da Natureza ofende. Tudo o que ela, natureza, nos dá, acha pouco. Gente que, enciumada, inveja a capacidade da natureza de surpreender por existir sem grande aparato. Gente que congemina a destruição e somente age para arrasar.

Fotografia minha - O Limoeiro do meu pai.

Assim podia começar esta história. Como inúmeras.
Era uma vez...
Um pequeno terreno onde em tempos existiam duas oliveiras, às quais um homem acrescentou uma nespereira, um damasqueiro, lavrando a terra inculta, plantou ervas aromáticas, couves e feijoeiros. Enfeitou-lhe os lados com vasos de flores e uma correnteza de buxo, que aparava com mestria.
Um dia, aventurou-se e juntou-lhe uma videira. Porque o terreno não era plano, escavou degraus. E, na parte inferior aplanada, fundeou um limoeiro. 

Nas laterais, poria vasos de avencas, patas-de-cavalo, espadas-de-são-jorge e sardinheiras coloridas.
À sombra de tudo, num recanto, ergueu um pequeno refúgio e, não cansado mas merecedor de sossego, sentava-se depois a apreciar a sua pequena obra. 

Tudo ao seu redor cresceu, floriu, deu fruto, como a agradecer-lhe o empenho e o zelo. Dali se recolheram os bens que a Terra tão singelamente nos dá, porque é assim. Franca e boa.
Mas vieram outros. Ocos por dentro que, em nome de alguém tão ou mais podre por dentro, trouxeram máquinas famintas que morderam troncos, que mastigaram como a ossos, sugaram ramos e folhas, engoliram paus, cuspiram pedras.
E de tudo restou nada para deleite do olho cíclope destes gigantes anões, que nunca forjaram mais que a arma da ignomínia. Hoje, uma pilha de terra remexida jaz... onde um dia houve o que se poderia chamar um quase jardim/pomar.  

 

 

2